quarta-feira, 29 de julho de 2009

Ela


Ela está no quarto a durmir. Consigo ouvir o barulho vindo da televisão que ela insiste todos os dias em deixar ligada. Se eu a matasse agora o que aconteceria depois? O que diria á polícia? Qual seria a explicação que dava? Provavelmente seria que a odeio...Será que isso chegaria para que todos perdoassem o meu crime?
Veio ter comigo e olhou-me como se eu estivesse em exposição. Ela olhou-me com olhos de quem quer ser algo que não pode ser, algo que quer ter e não pode ter. Abriu o frigorífico e tirou o seu adorado vinho, despejando uma porção para dentro de um copo mais próximo...olhou-me mais uma vez. Bebeu-o como quem bebe água mais uma vez, aquele maldito vinho rasca que diz no seu exterior "vinho de cozinha" afinal sempre tem mais utilidades do que aquelas que realmente aparenta. Olhei-me pela web-cam instintivamente, vi que permanecia com a mesma cara serena, apesar de sentir um grande nojo de mim, de tudo e todos, eu achei isso perfeito. Nenhum de vocês vía o quanto eu me preocupava, e eu gostei de saber disso, na verdade foi onde mais longe consegui chegar como pessoa. Começou a falar sozinha, chorava e pedia-me ajuda, pedia-me dinheiro. Eu recusei e levantei-me. Deitei fora o seu "amor". Ela chorou ainda mais, e depois vingou-se. Sem dizer uma palavra continuei a deitá-lo pelo lava-loiças enquanto era sacudida e encxuvalhada. "Tu pediste-me ajuda..." pensei eu. A última gota caíu e com isso também desapareceu o lado racional dela. Vingou-se mais ainda, vingou-se, vingou-se, vingou-se, em silêncio. Gritou-me coisas horríveis das quais eu já estava farta de ouvir, era normal ouvir. Não deveria eu já estar haituada a tais palavras? Não deveriam elas já ter perdido o seu verdadeiro significado e parar de me atingir cada vez mais que ela as repete? Não deveria??
Vingou-se até anoitecer, e eu deixei. A culpa foi minha, não o devia ter feito, não a devia ter ajudado. Quando tudo acabou e voltou a estar consciente da realidade, parou. Devagar caminhei para o meu quarto, as vinganças eram cada vez piores ultimamente.
Senti uma luz forte bater-me na cara fazendo-me franzir as sobrancelhas, era dia, mais uma vez. Levantei-me e vi se os animais tinham comida e água. Arrastei-me até ao meio do quarto, abri o guarda-roupa e tentei procurar algo que me fizesse feliz, algo diferente de tudo, algo que me desse esperança. Não havia nada, optei por escolher qualquer coisa. Pus-me á escuta na porta do quarto na esperança de não ouvir barulhos por trás desta. Saí após ter a certeza que a casa estava vazia(sem ela). Fui para a cozinha e acendi o esquentador e corri para a casa de banho para tomar banho, tinha de me despachar antes que ela chegasse a casa, tinha de ser rápida. Despi-me e pus-me na banheira. Deixei que a água escorresse pelo meu corpo nojento e me desse um pouco de liberdade, me fizesse fazer ficar mais leve. Saí do banho e sequei-me, reparei (assim como reparo todos os dias) que tinha um espelho na minha frente. Olhei e esperei que algo acontecesse, mas ela nem me respondeu, nem me cumprimentou, como sempre. Quando saí dos meus desvaneios apercebi-me do tempo que havia ficado ali a olhar-me ao espelho(perda de tempo) e vesti-me á pressa, não queria vê-la. Enrolei a toalha na cabeça e fui lavar os dentes e a cara. Voltei e olhei-me ao espelho para pintar-me. Pintei os olhos para disfarçar os grandes círculos negros á volta dos meus olhos. Tirei a toalha da cabeça e penteei-me sempre a escutar quaisquer barulhos que pudessem vir da porta, o barulho da chave a entrar na fechadura da porta por exemplo. Acabei de me pentear e fui arrumar o que desarrumei, não quero ser uma má filha hoje, pelo menos hoje.
Era quase de noite e estava sentada em frente ao computador na cozinha. Ela chegou cambaleante e começou a dizer as suas palavras sem nexo e entre-cortadas. O seu olhar vazio não parava em nenhum objecto em especial, simplesmente falava para tudo. Não olhei para ela uma única vez, fingi não estar presente. O seu olhar parou em mim finalmente, e tudo começou novamente. "Porque é que fizeste isto? - Uma faca pareceu trespassar o meu coração ao ouvir a sua voz assustadoramente alta. Não vês que me magoas? Viste o que fizeste a esta família?- Outra facada... Eu sei que nunca gostaste deles! Eu sei que os tratavas mal! Eu sei que querias que morressem!- por dentro já me encontrava sem corpo de tão mutilado, mas mesmo assim continuaste. Tu não ligavas á tua irmã! Gritavas com o teu pai! Viste o que fizeste? Viste o que aconteceu! Obrigaste-me a fazê-lo!..."- arregalei os olhos ao ouvir o que ela disse, tentei apagá-lo novamente, "não era verdade, não podia ser verdade" pensei ao abanar levemente a cabeça. Ela continuava a dizer coisas horríveis enquanto caminhava para mim com os seus olhos dilatados e a boca cheia de saliva, parecia um animal enfurecido. Deixei-me ficar sentada e tentei ignorar tudo o que ela dizia, e paguei por isso no momento seguinte. Senti a minha cabeça bater furiosamente contra a parede repetidas vezes. Não tive tempo para qualquer reacção, apenas deixei-me levar mais uma vez, deixei-a completar a sua vingança. A cada batida sentia-me mais livre, mais leve, talvez fosse esta a verdade de que eu tanto eu procurava, eu merecia o castigo por isso não lutei contra ele. Fez-me olhar para a sua cara enquanto envolvia as suas mãos no meu pescoço, permaneci apesar de tudo, satisfeita ao notar que a mesma apatia de á momentos atrás ainda assombrava a minha cara. Sem aviso prévio senti as suas unhas a arranharem o meu peito, parecia que procurava algo, ofegante ela procurava desenterrrar algo. Parou de repente e olhou-me e sorriu, um sorriso afectado e doente. Abraçou-me. Arregalei os olhos e senti um nojo ainda maior de mim, a sua pele tocava na minha, para mim era insuportável tal toque. Vomitei, vomitei, vomitei-lhe para cima. Fugi enquanto lágrimas escorriam pela minha cara. Precisava de algo, de um castigo. Ainda conseguia ouvir as suas gargalhadas escandalozas vindas da cozinha. Tinha de parar com este sofrimento tinha de pará-lo antes que algo pior acontecesse, Entrei no quarto e tranquei a porta. Remexi as gavetas á procura de algo. Feliz peguei naquela pequena caixinha que representava a minha salvação. Fiz deslizar o fósforo e acendio-o. Olhei para a pequena chama, tão linda, tão leve e graciosa. Feliz deixei a pequena chama beijar a minha perna até se extinguir. Acendi outro, e outro e outro, até que notei que poucos restavam. Olhei para a pequena caixa e depois para os fósforos queimados e pedi desculpa "Vocês foram tão bons para mim e eu só vos soube fazer mal...desculpem-me". Adormeci mais uma vez.
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